Allan Turnowski ligou cinco vezes para inspetor Christiano, diz PF


Indiciado pela Polícia Federal por vazamento de informação , o delegado Allan Turnowski, ex-chefe de Polícia Civil, em pouco menos de 30 minutos do dia 27 de novembro de 2010 ligou cinco vezes para o inspetor Christiano Gaspar Fernandes, um dos principais alvos da Operação Guilhotina , que já levou à prisão 39 pessoas, sendo 30 policiais suspeitos de envolvimento em crimes. Os telefonemas foram grampeados por agentes federais que, com autorização da Justiça, monitoravam Christiano, na época lotado na 22ª DP (Penha) e que acabou preso. "Caiu na escuta da federal", teria dito Allan ao inspetor, num dos telefonemas gravados.
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Operação da PF indiciou 45 pessoas
Em 27 de novembro de 2010, um sábado, forças de segurança se preparavam para entrar no Complexo do Alemão, depois de tomarem a Vila Cruzeiro. Policiais civis e militares continuavam vasculhando a Vila Cruzeiro, supostamente à procura de armas, drogas e traficantes foragidos, enquanto militares do Exército e PMs cercavam o Alemão. Os telefonemas teriam ocorrido à tarde. Apesar de o inspetor naquela época pertencer ao terceiro escalão da 22ª DP, Turnowski telefonou para ele e não para a delegada Márcia Backer, titular da unidade.
O GLOBO tentou contato com Turnowski nesta segunda-feira, mas não conseguiu localizá-lo. O ex-chefe de Polícia tem negado as acusações e afirmado que é inocente. No dia em que foi indiciado pelo delegado Allan Dias, coordenador da Operação Guilhotina, o ex-chefe de Polícia disse que a denúncia não seria aceita pelo Ministério Público. A operação provocou o indiciamento de 45 pessoas, sendo 32 policiais militares e civis, inclusive o delegado Carlos Oliveira, ex-subchefe operacional da Polícia Civil.
- A única conversa gravada em que eu falo sobre a 22ª DP (Penha) é a respeito de um preso que o secretário mandou que eu checasse. Eu falei com ele (o inspetor Christiano Gaspar Fernandes) e realmente existia o preso. Depois, há o diálogo em que eu digo que a nossa corregedoria estava de olho nele, que ele ficasse muito atento, que procedesse dentro da lei - afirmou Allan naquela ocasião.
Beltrame negou ter contado a Turnowski sobre operação
Também naquele mesmo dia, o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, disse em nota que, ao ser informado pela PF sobre policiais civis que estavam achacando um traficante durante a ocupação do Complexo do Alemão, ligou para o então chefe de Polícia Civil. Beltrame contou que cobrou providências de Turnowski, mas em nenhum momento mencionou a Operação Guilhotina.
Turnowski, além de indiciado por vazamento de informações, é acusado por uma testemunha de receber propina de contraventores e de uma quadrilha de contrabandistas que atuaria no comércio popular do Rio . No início da semana passada, ele foi afastado do comando da Polícia Civil, após tensa negociação. Recebeu elogios do secretário de Segurança e do governador Sérgio Cabral, mas foi substituído pela delegada Martha Rocha .



Beltrame ouvido pela PF reitera que não citou operação a Turnowski

Secretário não mencionou Operação Guilhotina em telefonema com Allan.
Ex-chefe, Turnowski foi indiciado pela PF por vazamento de informação.


O secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, foi ouvido na tarde desta terça-feira (22), como testemunha no inquérito no qual a Polícia Federal indiciou o ex-chefe de Polícia Civil Allan Turnowski por vazamento de informações. As informações são da Secretaria de estado de Segurança.

Segundo a Secretaria, Beltrame confirmou que ligou para Turnowski ao ser informado pela Polícia Federal que policiais civis estavam extorquindo um traficante durante a operação no conjunto de favelas do Alemão, na Zona Norte.
Beltrame explica que, como autoridade máxima da segurança do Estado, cobrou ao então chefe de Polícia do Rio providências. Em nenhum momento, o secretário mencionou a Operação Guilhotina ou o nome do inspetor investigado.
No último dia 17, quando foi indiciado pela Polícia Federal,  Turnowski reafirmou que não foi alertado por Beltrame sobre a ocorrência da Operação Guilhotina. Ele  deixou o cargo de chefe de Polícia Civil na terça-feira (15).
Segundo a PF, houve violação de sigilo funcional por parte de Turnowski. Ele teria alertado um inspetor sobre a investigação da Polícia Federal. O policial foi preso durante a Operação Guilhotina, deflagrada na última sexta-feira (11), suspeito de integrar uma milícia em Ramos. Na operação, policiais civis e militares acusados de desvios foram presos, entre eles o delegado Carlos Oliveira, que foi subchefe de Polícia Civil na gestão de Turnowski.
Turnowski mostra depoimento  (Foto: Tássia Thum/G1)Turnowski mostra cópia do depoimento que deu
na Polícia Federal 
O ex-chefe de Polícia Civil afirmou também que não acredita que a acusação passará "pelo crivo do Ministério Público ou da Justiça." 
“Nada tem contra mim. Está escrito aqui [ no depoimento]: prestou declarações como indiciado por vazamento de informações sendo que a informação foi obtida através da Secretaria de Segurança Pública, sendo que o secretário não foi ouvido. Eu já fui indiciado antes que alguém da Secretaria de Segurança me dissesse que falou pra mim que eu sabia da operação, ou seja, antes de ter sido indiciado deveriam ter perguntado ao secretário se ele falou comigo. Eu liguei para ele durante a audiência e falei:' secretário o senhor falou comigo da operação? E ele, claro que não'”, defendeu-se Turnowski.
Turnowski também negou que recebia propinas de criminosos e afirmou que não há provas contra ele. A acusação foi feita por uma testemunha da Polícia Federal, de acordo com o jornal "O Globo" desta quinta.
Em um trecho do depoimento publicado no jornal, a testemunha acusa o ex-chefe de receber R$ 500 mil de uma milícia em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio. Turnowski questiona o fato de as acusações serem baseadas em uma única testemunha, sem que outras provas embasem a denúncia.
"Cadê as provas?"
“Você tem uma testemunha que é ex-traficante, ex- miliciano, que diz que o chefe de Polícia ganhava R$ 500 mil. Não diz o dia, não diz a hora, não diz quando. Você tem toda uma investigação, você tem grampo, você tem quebra de sigilo, e não se apresenta nada, mantém apenas uma testemunha falando isso. Cadê as provas? Volto a perguntar, cadê as provas? Vou lá prestar depoimento, estou à disposição sempre para prestar esclarecimento como qualquer cidadão. A única coisa que eu não entendo é que como de um testemunho de um ex-traficante que vira testemunha, um chefe de Polícia, da noite para o dia, passa de um cara respeitado para um vilão, isso que não entendo, sem prova, sem nada. Isso que está acontecendo comigo pode acontecer com qualquer pessoa da sociedade”, afirmou o delegado.
Camelódromo A testemunha diz ainda que R$ 100 mil eram pagos a Turnowski para que não fosse combatida a venda de produtos falsos no Camelódromo da Uruguaiana, no Centro do Rio. Em janeiro, o Camelódromo foi fechado numa operação da Polícia Civil e da Receita Federal. Mais de 1.500 boxes foram revistados e agora só estão funcionando os que vendiam mercadorias legais.
“Há sete meses eu botei uma delegada lá com o objetivo simplesmente de acabar com o Camelódromo. Ela fez uma operação, não conseguiu na via penal, conseguiu na via empresarial, e ela conseguiu um fato inédito, nunca tinha acontecido em nenhuma gestão e hoje no Camelódromo não tem pirataria. Acho que isso é a maior prova de que não posso estar com desvio de conduta perante o Camelódromo que mandei terminar", afirmou o ex-chefe.


PF mostra conversas entre policial civil e Turnowski

Trinta policiais foram presos na Operação Guilhotina.
Em uma ligação, ex-chefe de Polícia pede empenho para fazer apreensões.
 

Após um ano de investigação da Polícia Federal, escutas telefônicas mostram que em vários momentos o inspetor da Polícia Civil Christiano Fernandes, preso pela PF na Operação Guilhotina, falou com o ex-chefe de polícia Allan Turnowski. Até agora trinta policiais foram presos na Operação Guilhotina.
Em uma das ligações Christiano ligou para Turnowski para falar que prendeu traficantes e que eles confessaram que os chefes do tráfico ordenaram ações terroristas pela cidade.
Allan Turnowski – Vamos agir, vamos agir que é hora da gente provar nosso valor aí. Mostrar que o que a gente fez durante anos era o correto. E apesar de tentarem destruir o que a gente fez. Agora a gente está sendo colocado a prova aí. Tem muita coisa destruída, nossos canais de informação, nossos contatos, mas é hora de refazer. Senão a gente não segura isso não.
Christiano Fernandes – Deixa comigo.
Numa outra ligação, Turnowski pede empenho de Christiano para fazer apreensões.
Allan Turnowski – Hoje é dia de apreensão, parceiro. Temos que pegar alguma coisa. Bota sua galera firme, eu sei que vocês não têm essa de sujar a mão então cai dentro. A gente precisa de apreensões hoje.
Christiano Fernandes – Deixa comigo, pô. Deixa comigo. Eu entro lá e arrebento.
Allan Turnowski – Cai pra dentro lá porque a gente precisa de arma, de droga, de vagabundo. Se não tiver vagabundo, arma e droga. A gente precisa disso hoje aí.
Num terceiro telefonema, o ex-chefe de polícia liga para Christiano para saber a situação de um bandido preso. Nesta ligação, ele cita escutas da Polícia Federal.
Allan Turnowski – O secretário me ligou que caiu na escuta da Federal a prisão desse cara por um pessoal da 22ª DP. Por isso que eu estou te ligando. Entendeu?
Christiano Fernandes – Entendi. Está lá na 22ª DP. Tá lá trancado já.
Allan Turnowski – Então tá, então olha só: fica esperto aí porque nego na Federal está dizendo que caiu na escuta, que nego ia vender uma cabeça aí, não sei o que. Ainda bem que eu já tinha sido ouvido e já tinha falado com o secretário. Senão nego já tinha queimado vocês aí. Então fica esperto, vê se não tem ninguém mais agarrado. Vê isso certinho aí. Confere as suas equipes aí.
Christiano Fernandes – Não, não tem não. Sou eu que estou na rua, sou eu que estou rodando. Não tem não.
A Polícia Federal indiciou Allan Turnowski por quebra de sigilo funcional baseado na gravação deste último diálogo.
De acordo com o relatório da PF, Turnowski teria divulgado para Christiano Fernandes a existência da operação da Polícia Federal que visava reprimir crimes praticados por policiais estaduais.
Segundo a polícia, Allan Turnowski está fora do país. Na semana passada, o ex-chefe de polícia negou que soubesse da operação da Polícia Federal e garantiu que é inocente. Ele alegou que ligou para Christiano a pedido do secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, para saber a situação de um preso.
Beltrame já prestou depoimento na Polícia Federal e confirmou que falou com Turnowski, mas disse que em nenhum momento citou a Operação Guilhotina.
Além de Allan Turnowski, a Polícia Federal indiciou também a delegada Márcia Becker, por prevaricação. No dia da Operação Guilhotina, o inspetor Christiano Fernandes ligou para ela para avisar sobre a operação. De acordo com a PF, Christiano pediu que a delegada dissesse que ele estava de férias. Ela teria concordado.
Agora, com o relatório da PF entregue à Justiça, o Ministério Público tem até 15 dias para decidir se denuncia ou não os delegados Allan Turnowski e Márcia Becker.
A operação
No dia 11 de fevereiro, a PF iniciou no Rio uma megaoperação para prender policiais civis e militares suspeitos de ter ligação com traficantes, milícias e máfia dos caça-níqueis.
Na ocasião, Márcia Becker foi conduzida à sede da PF. Ela era titular da 22ª DP durante as ações na Vila Cruzeiro e no Alemão, em novembro do ano passado, e já esteve à frente da Delegacia de Repressão a Armas e Entorpecentes (Drae) e da 17ª DP (São Cristóvão). No início da ação, agentes vasculharam armários das delegacias da Penha e de São Cristóvão. De acordo com a Secretaria de Segurança, os agentes procuraram, sobretudo, materiais que poderiam reforçar as acusações contra os suspeitos.
Com os desdobramentos da ação, o ex-chefe da Polícia Civil do Rio, Allan Turnowski, acabou deixando o cargo e foi indiciado pela PF.
A  Operação Guilhotina prendeu 38 pessoas, das quais 30 são policiais militares ou civis, incluindo o delegado Carlos Oliveira, ex-subchefe operacional da Polícia Civil. A ação também apreendeu farta quantidade de munição, um fuzil, três pistolas e uniformes de grupos especiais da polícia (Core e Bope), além de grande quantidade de dinheiro.
TJ aceita denúnica de MP
Na semana passada, Tribunal de Justiça (TJ-RJ) confirmou, através de sua assessoria, que aceitou a denúncia do Ministério Público contra 43 investigados - a maioria policiais civis e militares - na Operação Guilhotina
Com o recebimento da denúncia pela Justiça, foi iniciado o processo penal contra os réus acusados dos crimes de formação de quadrilha, corrupção passiva e ativa, peculato e violação de sigilo funcional e outros delitos. A denúncia do MP foi feita ao Juízo da 32ª Vara Criminal da Comarca do Rio.
De acordo com a denúncia, os acusados atuavam em delegacias ou em posições estratégicas da Segurança Pública. Os policiais "formavam quatro grupos criminosos que atuavam independentemente utilizando-se das facilidades proporcionadas pelos cargos que exerciam".
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