Aprenda com o meu erro

Pedimos a quatro pessoas que conseguiram admitir os próprios erros – e aprender com eles – que contassem suas histórias

Ainda bem que arrependimento não mata, porque é a partir dos erros que nasce o conhecimento de como acertar e tomar o melhor rumo. E ninguém precisa cometer todos os erros do mundo para aprender – às vezes, a experiência dos outros já basta.

Aliás, há até um estudo que indica que é com os erros dos outros que aprendemos mesmo. Numa pesquisa da Universidade de Bristol, voluntários jogaram um game enquanto seus cérebros eram monitorados. Quando ganhavam o jogo, neurônios ligados ao aprendizado se acendiam, mas nada acontecia quando perdiam. Por outro lado, quando uma pessoa via outra jogar e perder, o cérebro dela acionava os mecanismos de aprendizado para não repetir os erros alheios.
Por isso,  pedimos a quatro pessoas que conseguiram admitir os próprios erros – e aprender com eles – contassem suas histórias. Para que os erros não sejam repetidos.

Conheça as histórias:
“Eu era o cão do ciúme”

Não aceitei a mudança no meu padrão de vida e me endividei

Arrisquei minha vida por farra

Vício em amor destruiu a minha vida

 

“Eu era o cão do ciúme”

Flávia desconfiava de tudo. Acabou perdendo o namorado e ainda juntando o ex com uma amiga, de tanto dizer que a outra era a fim

Flávia Gomes Pereira, assistente pedagógica de 32 anos, recebia constantemente a visita do monstro de olhos verdes. Possuída por ele, chegou a revirar gavetas de namorados procurando provas de traição, tinha ciúme de amigos e amigas, da banda em que ele tocava e não dormia enquanto ele não ligasse e avisasse que estava em casa – anos antes de celulares serem populares. “Acho que só faltava eu ter ciúmes da mãe dele. Eu era o cão”, conta.

Era tanto ciúme que Flávia passou a viver grudada no namorado. “Esqueci todos os meus amigos, meu mundo girava em torno dele. E olha que os meus pais falavam para eu maneirar, para não ser tão grudenta”, diz. Se numa festa via o rapaz conversando com outra moça, Flávia já interferia e se apresentava: “Olá, sou a Flávia, namorada”. Durante os dois anos em que o namoro durou, ele foi paciente com ela. “Hoje eu vejo que não tinha o menor direito de mexer nas coisas dele. Onde eu estava com a cabeça? Se fosse outro acho que teria me mandado para o inferno por isso”, diz Flávia

O namoro acabou, claro, por iniciativa dele. E o ex foi atrás de uma amiga de Flávia. “De tanto eu encher a cabeça dele dizendo que ela estava a fim, acabei juntando os dois”, lamenta. “Tomei um pé, estava sem amigos e ainda por cima, com dor de cotovelo.” Mas a amargura serviu para Flávia aprender a se controlar. “Comecei a perceber o quanto as minhas atitudes eram infantis. Fui percebendo que não precisava ficar grudada, e que namorado não deixa de gostar só porque está longe.” Ela passou a valorizar mais as amizades também, e decidiu não se afastar mais quando começasse relacionamentos.

Não que Flávia tenha se livrado 100% do ciúme. “Um pouquinho, bem pouquinho, é bom para dar um temperinho na relação, mas tem que bem de leve mesmo”, afirma. “Não adianta ficar controlando horário, telefone, e-mail. Se for para rolar traição, vai rolar de qualquer jeito, independentemente da marcação cerrada”. Para ela, hoje o maior antídoto contra esse veneno da alma é a confiança. Nada melhor do que o coração em paz para poder curtir plenamente os relacionamentos.

 

Não aceitei a mudança no meu padrão de vida e me endividei

Rose Mary perdeu o emprego. Conseguiu um que pagava menos, mas continuou gastando como antes. O resultado: dívidas

Rose Mary Ferreira, 40 anos, é assistente financeira. Passa o dia lidando com dinheiro, acertando contas e cobrando dívidas e pagamentos atrasados. Mas isso não impediu que se visse na situação oposta: foi ela quem passou a receber cobranças. Há cinco anos, Rose perdeu o emprego. Conseguiu outro, mas passou a receber um salário equivalente a um terço do anterior. No mesmo ano, sua mãe, com quem morava, morreu. “Ela costurava em casa e recebia aposentadoria. Eram três fontes de renda, que caíram para uma, reduzida.”

Mas Rose continuou saindo à noite e mantendo o mesmo estilo de vida e nível de gastos, bancados com a reserva financeira que tinha guardada. “Eu descontava a tristeza pela perda da minha mãe saindo, tentando me divertir”, conta. Quando se deu conta, já estava com dívidas de mais de R$ 5 mil. “Fui ao banco, negociei e consegui pagar, mas comecei a bola de neve de novo. Encerrei a conta lá, abri conta em outro banco, e logo estava devendo mais uma vez”, conta.

Envidada pela segunda vez, Rose passava mal de ansiedade. “Nunca deixei de comer, mas perdi muitas noites de sono pensando em como ia pagar as contas. Estava perdendo tudo. Me perguntava para onde estava indo essa minha vida?”, conta. Negociou novamente a dívida no banco, com juros mais baixos, mas não mudou o padrão de consumo. “Pensava: já estou lascada, deixa seguir mais um pouco, não vou deixar de me divertir.” Por medo do Serviço de Proteção ao Crédito, pagava as contas de água, luz e gás da casa pontualmente, mas com o desconto em folha de pagamento da parcela da dívida, sobrava muito pouco do salário.

As mudanças só foram definitivas quando ela fez um curso de reeducação financeira. Cancelou um cartão de crédito, reduziu o limite do banco e começou a cortar detalhes que nunca tinha pensado, como identificador de chamadas no telefone fixo, racionalização no uso água, luz e energia. Programas de lazer caros foram trocados por outros mais baratos, e o almoço em casa foi substituído por marmita, para poupar gasolina. Mas, acima de tudo, aceitou que não poderia continuar vivendo como se tivesse um dinheiro que não tinha. “Quando vi, já não estava devendo mais nada, e agora estou conseguindo até poupar. Em um ano e meio me livrei da dívida e mudei meu modo de vida.” Rose vive bem hoje com o mesmo salário e, de nome limpo, está poupando para dar entrada numa casa própria.

Agora que aprendeu, a assistente financeira garante que não entra mais no vermelho. “Esse foi meu erro: minha renda mudou e não mudei meu padrão de vida. Agora, além de poupar, consigo viajar e fazer coisas que eu quero”, comemora.

 

Arrisquei minha vida por farra

Amigos adolescentes, festa, um jipe caindo aos pedaços e uma viagem para o litoral - na hora, Mario Canna não pensou no risco

Dias antes de comemorar o aniversário de 18 anos, o empresário Mario Canna, 32, estava numa festa com amigos, em São Paulo, quando alguém lançou a ideia: “Vamos descer para a praia?”. Não haveria nenhum problema, se o carro usado pelo grupo estivesse em condições de rodar, se os amigos que se revezaram no volante não tivessem bebido nem tivessem varado a madrugada acordados.

As cinco pessoas do grupo, alguns menores de idade, juntaram os trocados que tinham no bolso e colocaram combustível em um jipe que estava no meio de uma reforma. “Era todo mundo molecada. Já era bem tarde, a gente saiu umas cinco horas, da sexta para o sábado”, lembra. “O jipe estava para ser reformado e tinha sido desmontado para ser pintado. Não tinha retrovisor e vidros. Fomos com o estepe, mas ficou em algum lugar no meio do caminho”, diz o empresário.

Canna não lembra quantas panes mecânicas o jipe teve no meio da estrada. “Antes de sair, tivemos que desmontar o carburador, na rua. Montamos de novo. Na ida, quebrou algumas vezes. A cada vez, a gente parava e resolvia do jeito que dava. Outro problema foi que a bomba de gasolina também tinha parado. Fizemos funcionar na base da gravidade, segurando um galão de gasolina de três litros acima do motor, com uma mangueirinha. Paramos mais de dez vezes”, conta.

Mesmo com os percalços e paradas forçadas, eles conseguiram chegar ao litoral. Na volta, o carro pifou de vez, na Rodovia dos Imigrantes. Apareceu um guarda. “Ele disse que a gente era louco, mandou guinchar, levou a gente até o Riacho Grande e disse para a gente sumir, antes que ele se arrependesse”. Nessa hora, no mínimo, Canna percebeu que tinham escapado de uma pilha de multas, apreensão do veículo, prisão ou algum acidente grave. Para piorar, ele sumiu de casa sem ter avisado ninguém. “Fui ligar para casa na noite de sábado, meus pais estavam desesperados, à beira de ir avisar à polícia que eu tinha desaparecido”. Ele admite que a carraspana foi merecida, e suficiente para ele não repetir esse grau de irresponsabilidade de novo. “Nunca mais entrei nessa. Não morri, aprendi.”

 

Vício em amor destruiu a minha vida

Conheça a história de Juliana Frank, que dos 16 aos 24 anos não passou nem uma semana solteira, e só sabia amar com entrega total

Relacionamentos em série, com dedicação exclusiva, crises de ciúme e possessividade, somados a álcool e baixa autoestima, foram os ingredientes da bomba que a roteirista e escritora Juliana Frank, 25 anos, detonou aos 16 anos. “Casei e foi desastroso. Passei a viver no meio de briga e confusão”, lembra, ao falar da época que não deixou saudades.

Ela se apaixonou por um homem de 30 anos, e decidiu que sairia de casa para se casar com ele e viver uma “paixão fulminante”. Teve de ser emancipada. Quatro anos depois, o casamento acabou, e ela engatou um relacionamento novo em menos de uma semana – o que hoje percebe como um sinal de falta de equilíbrio emocional. “Essa urgência sempre foi muito forte para mim e destruiu minha vida”, conta. “Para mim, é prova de que era um vício. Achava que tinha que fazer tudo por amor, largar minha vida, me dedicar exclusivamente ao relacionamento. Fiz isso em série por vários relacionamentos, um seguido do outro. Não fiquei nem uma semana solteira dos 16 aos 24 anos.”

Quando se casou novamente, Juliana estudava teatro e trabalhava como atriz. Perdeu inúmeros trabalhos e oportunidades, se afastou de família e de amigos. “A paixão deixa você num estado mais selvagem, fora do sistema. Perdi a sanidade. Eu gostava da sensação, de ser tomada por isso. Mudava de emprego por causa dos namorados, trancava a faculdade.” As coisas só começaram a melhorar quando ela buscou ajuda. “Faz dois anos que eu faço terapia. Vício em amor é uma doença, e eu não aguentava mais sofrer. Larguei a faculdade várias vezes, ficava sofrendo em casa, sendo consumida, me dedicava a isso.
Olhando para o primeiro casamento, ela enxerga a carência que a levou a sair de casa. De uma adolescente que sequer conseguia dormir sozinha, se tornou uma mulher que está feliz solteira, focada no trabalho e cheia de conquistas concretas e positivas na vida. Acaba de lançar seu primeiro livro, “A Quenga de Plástico” (Ed. 7 Letras), e diz que a sensação é de uma “simplicidade muito boa”. “Minha vida agora é mais prazerosa”. A tentação de outros relacionamentos semelhantes bateu à porta, Juliana conseguiu gerenciar. “Aprendi a sair fora das roubadas”, celebra.

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