Aumento de aids em mulher mais velha não é só culpa do marido

Revisão de 49 estudos mostra outros 7 fatores associados ao HIV em maiores de 50 anos

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O diagnóstico da presença do vírus HIV ficou mais frequente em mulheres acima dos 50 anos. Dados nacionais mostram que, em 2010, esta faixa etária correspondeu a 15,8% dos novos registros no universo feminino, sendo que em 2000 elas representavam apenas 8% do total de casos.

O levantamento foi feito no boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, divulgado no final do ano passado.

Para explicar o fenômeno, presente não apenas no cenário brasileiro mas em toda a população mundial, os especialistas sempre recorreram ao papel importante desempenhado pelos homens neste processo.

Os maridos ou companheiros fixos – com o auxílio do surgimento e popularização das pílulas contra a disfunção erétil – passaram a procurar relações sexuais fora do casamento e assumiram o papel principal como vetor de contaminação entre as mulheres mais velhas. 

Um grupo de pesquisadores brasileiros decidiu investigar então quais outros fatores estão por trás do aumento de contaminação da aids na parcela que já convive com a menopausa. Em uma revisão de 49 publicações científicas internacionais, eles separaram outras sete razões que ajudam a elucidar a epidemia do vírus nestas mulheres.

“O HIV na meia-idade passa por uma série de fatores. Na maior parte das vezes a transmissão é heterossexual e o parceiro tem uma importância enorme neste processo”, afirma a pesquisadora Ana Lúcia Ribeiro Valadares, uma das autoras da revisão e médica do Centro de Atenção Integrada à Saúde da Mulher, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

“Mas não podemos responsabilizar só homem pela contaminação da mulher. Muitas HIV positivas têm vergonha de falar sobre o assunto, com qualquer pessoa ou profissional, e acabam como um ponto de disseminação de aids também”, completa.

Veja abaixo os sete principais achados da revisão que vão além do papel do companheiro na infecção: 

 

1) A menopausa

As transformações no organismo trazidas pela menopausa já deixam as mulheres mais vulneráveis ao comportamento de risco (relações sexuais sem camisinha e submissão no relacionamento). O hormônio estrogênio em baixa, típico do período, diminui a lubrificação vaginal e também modifica o aparelho reprodutor, um impacto importante nas relações sexuais e na sensação de prazer. Além disso, as mulheres podem engordar neste processo, sofrer com alterações de humor mais constantes. Este turbilhão de acontecimentos pode ser porta de entrada para o sexo desprotegido e para a aids.

 

2) Negociação da camisinha

Adolescentes, jovens adultas e senhoras partilham de uma mesma dificuldade: em qualquer faixa etária negociar o uso da camisinha com o parceiro é encarado como desafio. Entre as mulheres mais velhas são acrescentados outros complicadores.

Elas não cresceram acostumadas a ouvir sobre a necessidade do preservativo (até os anos 90, a aids era associada apenas aos homossexuais masculinos), sofrem mais preconceito quando são “flagradas” com uma camisinha na bolsa e seus parceiros, de forma mais corriqueira, já sofrem com a disfunção erétil. Neste contexto de impotência, o preservativo aparece como mais um obstáculo para manter a ereção. Eles não querem usar. Suas companheiras também não exigem a proteção.

Além disso, na revisão conduzida pela médica Ana Lúcia Ribeiro Valadares, a dependência econômica que estas mulheres podem ter de seus maridos também surgiu como fator que dificulta a negociação do preservativo. A camisinha ainda é encarada como termômetro de confiança, falar sobre o uso pode ser sinal de infidelidade. Assim, há sempre o risco de perder o parceiro, a casa, o sustento e a alimentação.

Estudo realizado na Suíça com casais heterossexuais mostrou, em 2003, que em contatos sexuais nos quais havia equidade de poder, o uso do preservativo foi mais frequente. No entanto, diminuiu nos casais mais velhos e nos casais em que os homens tinham maior poder dentro da relação.

 

3) Estereótipo da sexualidade na maturidade

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O sexo pode até ficar diferente após os 50 anos de idade, mas isso não quer dizer que as mulheres “aposentam” a atividade sexual. Pelo contrário. Pesquisa feita pela Universidade Columbia, de Nova York, entrevistou 1.280 mulheres com idade média de 56 anos. Das participantes, 73% disseram ter feito sexo com penetração, pelo menos, nos seis meses anteriores à pesquisa. Porém, só 15% delas usaram camisinha.

Para os pesquisadores brasileiros, a insistência do estereótipo de que as mulheres mais velhas não fazem sexo acaba deixando esta parcela invisível para os programas de prevenção. Elas não se sentem vulneráveis e negligenciam a camisinha, favorecendo o contágio da aids.


4) O silêncio de outros médicos

O erro de acreditar que as mulheres mais velhas não têm vida sexual ativa também é repetido por parte dos profissionais de saúde. Ginecologistas, cardiologistas, psiquiatras e todas as outras especialidades médicas que acolhem pacientes do sexo feminino em seus consultórios deveriam perguntar sobre a qualidade das relações sexuais de suas pacientes e identificar possíveis atitudes de risco.

Mas, conforme atestou a pesquisa Global Study of Sexual Attitudes and Behaviors, apenas 9% das mais de 2.000 mulheres entrevistadas tiveram o assunto “sexo” questionado nas consultas médicas realizadas nos últimos três anos anteriores ao estudo.

Para os especialistas em HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis, tal postura por parte de seus colegas de outras áreas ajudaria a disseminar o comportamento preventivo e também favorecer o diagnóstico precoce de aids nas mulheres da meia idade.

 

5) Uso de drogas e abuso

Não raro, as mulheres HIV positivas fazem uso de drogas partilhar a seringa para usar drogas ainda permanece no cenário como causa de contágio do vírus HIV, responsável por 2% dos casos). Outra característica comum entre as infectadas é a vivência de abusos sexuais, presente em quatro em cada dez pessoas com HIV que fazem uso de álcool entrevistadas por pesquisadores da escola de medicina da Pensilvânia.

Estes dois fatores combinados, conclui a pesquisa conduzida pela médica Ana Lúcia Ribeiro Valadares, faz com que as mulheres tenham dificuldade em fazer o uso da camisinha mesmo após o conhecimento do diagnóstico do HIV.


6) Comportamento de risco das HIV positivas

Não são apenas as usuárias de drogas e abusadas sexualmente que negligenciam a camisinha mesmo após descobrirem o vírus HIV. Estudos sobre o comportamento dos soropositivos mostrou que, mesmo em relações estáveis com pessoas não infectadas, eles deixam de usar camisinha.

O Hospital das Clínicas de São Paulo chegou ao índice de 10% de pessoas com aids que não contam aos parceiros fixos que convivem com o diagnóstico. Na Inglaterra, estudo parecido chegou ao índice de 18% com este tipo de comportamento.

 

7) Mortalidade tardia dos portadores do vírus

Por fim, um último fator citado pela revisão brasileira que está associado ao aumento de casos de aids em mulheres com mais de 50 anos é o crescimento da sobrevida dos portadores do vírus.

A análise é que mulheres que descobrem o HIV após a menopausa não necessariamente foram infectadas nesta faixa etária. Por causa da ampliação da expectativa de vida de forma geral, elas sobrevivem e descobrem a doença anos mais tarde do contágio.

 

Diagnóstico tardio influencia 40% da mortalidade de aids

Se ele fosse mais precoce, queda da taxa de mortalidade seria de 62,5%, em vez dos atuais 43%, diz estudo

 

Estudo inédito coordenado pelo pesquisador da Universidade São Paulo (USP) Alexandre Grangeiro mostra que 40% da mortalidade de aids no Brasil está associada ao diagnóstico tardio, o que poderia explicar a pequena redução da taxas de óbito na década. Em 2001, foram registradas 6,4 mortes a cada 100 mil habitantes. Em 2009, o índice foi de 6,2 por 100 mil habitantes.

“O fim do diagnóstico tardio poderia gerar uma redução na mortalidade equivalente àquela registrada com o início do uso de remédios antiaids”, avalia o pesquisador. Com os antirretrovirais, a taxa de mortalidade pela doença foi reduzida em 43%. Se o diagnóstico tardio fosse superado, essa queda poderia chegar a 62,5%. “A identificação de pacientes poderia ter poupado a vida de 17 mil pessoas em quatro anos”, calcula Grangeiro.
Outro dado apontado pelo trabalho explica o motivo: uma pessoa que inicia tardiamente o tratamento tem um risco 49 vezes maior de morrer do que outra que começa o acompanhamento no período adequado. O diagnóstico tardio é um problema há tempos identificado pelas autoridades sanitárias. Mas, até o trabalho conduzido por Grangeiro, não havia dados que revelassem o impacto dessa demora nas estatísticas de morte.

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