Chineses tiram mais mercado do Brasil

 

Com o real valorizado pressionando os preços dos produtos fabricados no Brasil, a concorrência com mercadorias chinesas mais baratas levou 67% das indústrias brasileiras que competem com empresas chinesas a perderem clientes no mercado internacional. Pior do que isso, 4% dessas companhias deixaram de exportar suas mercadorias, desistindo de enfrentar a concorrência.

O mapa detalhado de quanto a concorrência chinesa afeta as empresas brasileiras apareceu na Sondagem Especial divulgada ontem pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). A CNI entrevistou 1.529 empresários em outubro do ano passado. Em pesquisa anterior, de 2006, o porcentual de companhias que haviam perdido espaço no mercado internacional para os chineses era bem menor, de 54%.

De acordo com a sondagem mais recente, 52% das indústrias exportadoras brasileiras concorrem com fábricas chinesas em outros mercados. Os dados apontam que a competição é mais intensa em seis setores industriais, nos quais pelo menos metade das empresas afirmou que concorrem com similares chineses. É o caso dos setores de material eletrônico de comunicação, têxteis, equipamentos hospitalares e de precisão, calçados, máquinas e equipamentos, além do setor que a CNI classifica como 'indústrias diversas'.

Pequenas empresas. A pesquisa mostra também os efeitos da concorrência chinesa no mercado interno brasileiro: 45% das empresas que competem com a China perderam espaço para os concorrentes. O efeito é maior entre as pequenas empresas, das quais 48% revelaram ter perdido participação nas vendas no País, por causa da enxurrada de importações de produtos chineses.

No entanto, 21% das companhias consultadas registram importação de matérias-primas da China, o que revela, segundo a CNI, um aumento da presença chinesa nas várias etapas da cadeia de produção brasileira.

Para o gerente executivo de Política Econômica da CNI, Flávio Castelo Branco, como o yuan tem sua cotação atrelada ao dólar, a valorização do real em relação à moeda americana tem sido o fator mais determinante para que produtos brasileiros percam mercado para os chineses tanto no mercado internacional quanto no doméstico.

Segundo ele, o aumento da concorrência nos últimos anos está diretamente ligado ao preço dos produtos chineses. O economista lembrou que os custos de produção na China são bem menores do que os brasileiros por diversos motivos, entre eles menores salários.

Apesar dos fatores estruturais que dão vantagem à China no comércio internacional, a concorrência com os chineses aumentou a partir do momento em que o câmbio brasileiro acelerou sua valorização. 'As dimensões estruturais pouco mudaram nos últimos anos, a grande alteração está na valorização do nosso câmbio', disse Castelo Branco.

 

Metade das empresas muda estratégia para enfrentar concorrência chinesa

O pânico ante a invasão chinesa no mercado mundial é tão disseminado na indústria brasileira que até mesmo as empresas que ainda não enfrentam a concorrência dos asiáticos já bolaram estratégias para lidar com a competição.

De acordo com a Sondagem Especial da Confederação Nacional da Indústria (CNI), metade das empresas nacionais se movimenta para tentar contrapor as vantagens de preço que os chineses oferecem aos consumidores, apostando em outros atrativos.

A principal alternativa é o investimento em qualidade e design dos produtos, apontada por 48,4% das 1.529 empresas entrevistadas pela entidade em outubro do ano passado. Em segundo lugar, aparecem os esforços para redução dos custos nas linhas de montagem e aumento da produtividade.

Cerca de um terço das companhias, ainda, planejam investir em imagem, diferenciando suas marcas das concorrentes asiáticas por meio de ações de marketing mais agressivas. Outra alternativa, estudada por 27% das empresas, é apostar no lançamento de produtos, para contrapor a variedade crescente de mercadorias chinesas que têm invadido as prateleiras mundo a fora.

Migração. 'Se não pode vencê-los, junte-se a eles'. Seguindo o velho provérbio, 13,2% das companhias entrevistadas consideram a opção de buscarem parcerias com empresas da China para tentarem sobreviver no mercado. Outros 10% foram ainda mais longe e já abriram fábricas próprias em solo chinês, principalmente nos setores de veículos, máquinas e equipamentos, materiais elétricos, eletrônicos e de comunicação.

Para o secretário de Política Econômica da CNI, Flávio Castelo Branco, o movimento pode fazer sentido, do ponto de vista empresarial, mas é ruim para o setor industrial como um todo. 'Significa perda de emprego no País, além de menor geração de tributos', avalia.

Segundo ele, as estratégias empresariais são válidas, mas dependem de uma ação mais efetiva de defesa comercial das autoridades brasileiras, além do combate à questão cambial. 'É preciso ter menos dependência da taxa de juros para controle da inflação, pois o diferencial de juros brasileiro favorece a entrada de dólares e pressiona ainda mais a cotação da moeda', completou.

O coordenador de sondagens conjunturais da FGV, Aloisio Campelo Júnior, avalia que a agenda de reformas estruturais para melhorar a competitividade do parque produtivo brasileiro precisa andar com mais velocidade para que o câmbio deixe de ocupar papel tão preponderante nas relações comerciais entre os dois países. 'Algumas coisas já foram feitas para melhorar a infraestrutura de portos e estradas, para reduzir a burocracia, mas ainda falta muito, sobretudo no que diz respeito à tributação da produção no Brasil.'

Da mesma forma, acrescenta Campelo Júnior, não adianta o governo aumentar as barreiras comerciais sem que a indústria invista mais em modernização e inovação. 'O protecionismo por protecionismo não leva a lugar nenhum', diz o economista.

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