Crise na Líbia tem potencial de desestabilizar economia global

  
21 de fevereiro - Opositores ao governo ocupam ruas de Benghazi em protesto cuja data não foi divulgada, segundo a  Reuters. Foto: Reuters

Na condição de 12º maior exportador de petróleo do mundo, a Líbia tem potencial de desestabilizar a economia global, se os protestos antigoverno que terminaram em violência interromperem o fornecimento do produto.
Desde que a suspensão das sanções impostas pela ONU e pelos EUA puseram fim ao status de pária do Estado líbio, investidores estrangeiros voltaram em bando ao país, ao longo dos últimos cinco anos - incluindo grandes petroleiras como a BP e a Exxon Mobil.
Mas a BP, por exemplo, está tão preocupada com a crise atual que está planejando retirar funcionários do país.
A empresa, que emprega 40 estrangeiros na Líbia, pretende retirar familiares de empregados e funcionários considerados não essenciais ao longo dos dois próximos dias.
A BP assinou um contrato com a Corporação de Investimento da Líbia, em 2007, para explorar duas áreas, uma envolvendo perfuração em águas profundas na Bacia de Sirte, no Mar Mediterrâneo, e outra no deserto no oeste do país.
Um porta-voz da BP disse à BBC que a perfuração na Bacia de Sirte continuaria, mas que equipes na região desértica de Ghadames foram retiradas e a atividade suspensa no local.
Apesar de as operações da BP ainda não terem levado à produção real de petróleo no local, a Bacia de Sirte é responsável pela maior parte da produção no país. O local contem cerca de 80% das reservas comprovadas de petróleo líbias, que chegam a 44 bilhões de barris - as maiores da África.
A Líbia também se beneficia por ter o tipo de petróleo cru leve que negociadores internacionais gostam, com pouco enxofre e uma gravidade específica que torna o produto ideal para transformação em gasolina e diesel.
E como apenas um quarto do vasto e pouco populoso território do país foi explorado, há muito para animar a indústria.
Crescimento para poucos
Mais da metade do PIB da Líbia vem dos setores de petróleo e gás natural, que respondem por mais de 95% das exportações do país, de acordo com o Banco Mundial.
Antes de a crise começar, a economia do país passava por um boom. O Fundo Monetário Internacional (FMI) acredita que a Líbia tenha crescido 10,6% ano passado, e que venha a crescer cerca de 6,2% em 2011.
Mas uma das principais razões por trás dos protestos é que essa enorme riqueza não está passando para as mãos da população.
De acordo com algumas estimativas, cerca de um terço dos líbios vive na pobreza. Não é incomum no país que as pessoas tenham dois empregos - devido aos baixos salários - apesar de cidadãos terem direito a sistema de saúde e outros benefícios de forma gratuita.
Desde que a Líbia retornou ao cenário dos negócios internacionais - após pagar indenização para as vítimas do atentado contra um avião que caiu em Lockerbie, em 1988 - as expectativas cresceram entre a população. Muitos pensavam que o fim do isolamento significaria aumento da qualidade de vida. Até agora, a espera foi em vão.
Mudança demográfica
Curiosamente, manifesteantes em Benghazi teriam retirado a bandeira líbia do topo do principal tribunal de justiça da cidade, substituindo-a pela bandeira da antiga monarquia - deposta em setembro de 1969 pelo golpe que levou Muamar Khadafi ao poder.
A maioria dos manifestantes não tem sequer memórias do rei Idris, primeiro e único monarca do país - já que ele foi destronado há mais de 40 anos, e mais da metade da população do país está abaixo dos 25.
Durante seu reinado, que começou em 1951 com a independência da Líbia, o rei manteve laços próximos com o Reino Unido e os EUA.
Quando ele estava no poder, Washington deu um enorme incentivo à economia líbia, ao construir a maior instalação da Força Aérea dos EUA no exterior - a Base Aérea Wheelus - perto da capital do país, Trípoli.
Mas a importância da Líbia como aliado dos EUA durante o começo da Guerra Fria não era vista com bons olhos pelo povo líbio.
Na verdade, houve manifestações para denunciar a proximidade do rei com o Ocidente após a derrota de países árabes para Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967 - da qual a Líbia não participou.
Essas manifestações abriram caminho para o golpe de 1969. Hoje, com uma nova geração, o país parece ter voltado a um ponto semelhante, com uma população jovem pedindo a prosperidade que o errático regime de Khadafi não conseguiu lhes dar.


Pilotos líbios desertam e levam caças para Malta


Dois pilotos da Força Aérea da Líbia desertaram na segunda-feira e levaram seus caças para Malta, onde disseram às autoridades que haviam recebido ordens para bombardear manifestantes, segundo fontes do governo maltês.
Os dois disseram que decidiram voar para Malta após receberem ordens para atacar manifestantes em Benghazi, segunda maior cidade da Líbia, epicentro dos protestos contra o regime de Muammar Gaddafi.
A polícia maltesa também está interrogando sete passageiros que chegaram da Líbia a bordo de dois helicópteros com matrícula francesa.
Fontes do governo disseram que os helicópteros deixaram a Líbia sem autorização das autoridades locais, e que só um dos sete passageiros -- que afirmam ser cidadãos franceses-- tinha passaporte.
A chancelaria francesa disse que estava analisando o caso.
VIOLÊNCIA
O episódio ocorreu em meio a intensos protestos na Líbia contra Gaddafi e seus 42 anos de governo autoritário. Intensa repressão já deixou ao menos 233 mortos, segundo informou nesta segunda-feira a ONG sediada em Nova York Human Rights Watch. Já a Federação Internacional de Direitos Humanos (FIDH) calcula entre 300 e 400 pessoas foram mortas desde o início da rebelião.

A FIDH relatou ainda que manifestantes antirregime assumiram o controle de cidades líbias e que militares estão desertando.
"Muitas cidades foram tomadas, principalmente no leste. Os militares estão debandando", declarou a presidente da FIDH, Souhayr Belhassen, citando principalmente Benghazi, reduto da oposição, e Syrta, cidade natal do coronel de Gaddafi.
A emissora de TV NTV, citando um trabalhador turco, informou que a cidade de Jalu, localizada cerca de 400 quilômetros ao sul de Benghazi, também foi controlada pelos opositores do regime.
"O controle está totalmente nas mãos da população. Não há forças de segurança, não há polícia. Estamos sujeitos à vontade e ao controle do povo", relatou Mustafa Karaoglu, que trabalha na cidade --de cerca de 3.500 habitantes--, onde um grupo de trabalhadores estrangeiros se mantém reclusos em seus locais de trabalho.
Benghazi, onde os protestos começaram na semana passada após a prisão de um advogado de direitos humanos e onde dezenas de pessoas foram mortas por forças de segurança, está efetivamente sob controle dos manifestantes, de acordo com alguns moradores da localidade.
BOMBARDEIOS
O governo de Gaddafi voltou a reprimir duramente os manifestantes que pedem sua renúncia e atacou, com aviões militares que dispararam munição real, multidões que se reuniram na capital da Líbia, Trípoli, para protestar, informou nesta segunda-feira a emissora de TV árabe Al Jazeera. Segundo especialistas, a ação poderia significar que o regime do ditador está perto do fim.
A informação foi passada por um cidadão líbio, Soula al Balaazi --que se diz um ativista da oposição--, que afirmou à TV por telefone que aviões de guerra da força aérea do país bombardeou "alguns locais de Trípoli".
No entanto, não foi possível confirmar a informação de forma independente.
Um analista da consultoria Control Risks, com sede em Londres, disse que o uso de aviões militares contra seu próprio povo indica que o fim pode estar próximo para Gaddafi.
"Isso realmente parecem ser atos derradeiros, desesperados. Se você está bombeando sua própria capital, é realmente difícil ver como você pode sobreviver", afirmou Julien Barnes-Dacey, analista da consultoria para o Oriente Médio.
"Na Líbia, mais do que em qualquer outro país da região, há um prospecto de violência grave e conflito aberto."


Veja mapa com as manifestações no Oriente Médio



Após as quedas dos governos da Tunísia e do Egito, os protestos em países árabes ganham força
Os protestos em países árabes, que levaram à queda dos governantes da Tunísia (Zine el-Abidine Ben Ali, exonerado em 15 de janeiro) e do Egito (Hosni Mubarak renunciou em 11 de fevereiro), serviram de inspiração para uma onda de manifestações que ganhou força em vários países vizinhos. Os dados serão atualizados de acordo com as últimas informações divulgadas.
Egito


Os protestos começaram em 25 de janeiro quando milhares de egípcios se reuniram na Praça Tahrir, no centro do Cairo. O objetivo principal foi atingido quando o presidente do Egito, Hosni Mubarak, se viu obrigado a deixar o cargo.

Líbia


Protestos contra o regime do coronel Muammar Kadhafi, há mais de 40 anos no poder, deixaram ao menos 200 mortos e um número não confirmado de feridos desde o dia 16 de fevereiro.

Bahrein


No Bahrein, os manifestantes se queixam de dificuldades econômicas e da suposta discriminação da monarquia sunita contra os xiitas, maioria da população. A repressão aos protestos deixaram ao menos sete mortos.

Marrocos


Milhares marcham em todo o país por uma nova Constituição com limites ao poder executivo do rei Mohammed VI. Os militantes ainda pedem reformas democráticas. Protestos deixaram cinco mortos, segundo o ministro de Interior, Taib Cherkaoui.

Argélia


Protestos esporádicos vêm acontecendo no país desde o começo de janeiro, com manifestantes pedindo a renúncia do presidente Abdelaziz Bouteflika.

Tunísia


Milhares vãos às ruas na Tunísia protestam para pedir novo governo após a queda do presidente Zine al-Abidine Ben Ali, que renunciou em janeiro.

Iêmen


Centenas de milhares de iemenitas protestam para pedir a renúncia do presidente Ali Abdallah Saleh. Ele anunciou, no dia 2 de fevereiro, que não concorreria a outro mandato, após três décadas no poder.

Jordânia


Milhares de jordanianos saíram às ruas, em 7 de janeiro, pedindo melhores perspectivas de emprego e redução nos preços de alimentos e combustível.

Irã

Líderes da oposição organizaram protestos contra o presidente Mahmoud Ahmadinejad. Em resposta, autoridades iranianas detiveram a filha do ex-presidente Akbar Hashemi Rafsanjani, líder da oposição.

Iraque

A situação também se complicou no Curdistão iraquiano. Desde quinta-feira manifestantes pedem em Sulaimaniya reformas políticas e o fim da corrupção no país



Gostou das postagens? Que tal compartilhar? Indique!
Clique acima e compartilhe por e-mail, Twitter, Facebook...