Disputa cambial pode levar economia a uma guerra protecionista

Para especialistas, economia mundial pode reeditar crise de 1930 caso não vença o que o ministro Mantega chamou de guerra cambial

 

O alerta partiu do Brasil – ecoado por discursos do ministro da Fazenda, Guido Mantega, e do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles – e tomou conta da agenda econômica global. A crescente onda de desvalorização de moedas promovida por alguns países, tendo o objetivo de estimular suas exportações, pode se transformar em algo que as autoridades brasileiras chamaram de “guerra cambial”. Mas a coisa pode ser ainda mais profunda. Caso as disputas cambiais não sejam resolvidas, dizem especialistas, o mundo pode se ver diante de uma guerra protecionista, nos moldes da que acentuou a Grande Depressão econômica da década de 1930.

 

“Quem está valorizando sua moeda frente ao dólar não quer abrir mão do poder que adquiriu”, diz o professor doutor de economia da PUC-SP, Antonio Correa de Lacerda. “O custo do não acordo cambial será uma guerra comercial, com os países tendendo a erguer barreiras comerciais”, completa.

Os passos da guerra já começaram. No fim de setembro, uma comissão da Casa dos Representantes dos Estados Unidos – o equivalente à nossa Câmara dos Deputados – aprovou um projeto de lei que prevê que as indústrias norte-americanas que provarem ter sido prejudicadas pelas importações chinesas poderão exigir a taxação desses bens.

O cenário de alerta tem mobilizado as principais autoridades econômicas do mundo. Nesta quinta-feira, líderes do chamado G20 (grupo das 20 maiores economias do planeta) reúnem-se em Washington (EUA) para discutir a questão cambial. O ministro da Fazenda Guido Mantega estará entre os debatedores. O próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse, recentemente, que levará o tema à próxima Cúpula do G20, que será realizada em novembro, na Coreia do Sul. 


A guerra

Na mesa de discussão, os interesses são os mais distintos. Como grande “capitão” da guerra cambial aparece a China, “sentada” em reservas próximas de US$ 1 trilhão. Tal colchão de segurança permite aos chineses manter o yuan valorizado, derrubando seus concorrentes mundiais. Evidentemente, os chineses não querem perder esse poder.

Já entre os chamados países desenvolvidos – que ainda estão cambaleando por conta da crise mundial –, a onda de desvalorização da moeda é uma alternativa para a retomada da economia. Em tempos de demanda interna fraca (já que as famílias, em especial na Europa e nos Estados Unidos, estão desalavancando seus orçamentos), a alternativa é baixar os juros – e, com isso, valorizar a moeda - e blindar a indústria local com estímulos às exportações.

“A segurança cada vez maior de que o mundo está deixando a crise para trás diminui o apelo do dólar como ‘porto seguro’. Paralelamente, a expectativa de que o viés da política monetária americana permanecerá expansionista por período prolongado reduz a atratividade do dólar como investimento”, diz o diretor da área de macroeconomia da LCA Consultores, Celso Campos de Toledo Neto, em relatório. “Neste contexto, moedas de países emergentes e de exportadores de commodities de forma geral ganham tração”, completa.

O Brasil insere-se aí. Alçado como bola da vez do pós-crise - pelo bom momento econômico e pelo alto retorno proporcionado em investimentos em papéis do Tesouro por conta das altas taxas de juros -, o País tende a receber um fluxo crescente de investimentos estrangeiros, que forçam a valorização do real frente ao dólar. Segundo projeções do Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês), a entrada de capital estrangeiro nos mercados emergentes deve crescer 42% neste ano, chegando a US$ 825 bilhões. Para 2011, o número deve subir para US$ 833,4 bilhões.

Refém

Na avaliação de especialistas, o Brasil está na condição de refém da disputa cambial. “Essa vinda de capital é inevitável porque o mundo está premiando os países que estão crescendo mais, beneficiando os emergentes”, diz a economista sênior para a América Latina do Royal Bank of Scotland (RBS), Zeina Latif. “O Brasil não pode abrir mão dessa fonte de financiamento porque não tem uma taxa de poupança doméstica que dê conta das necessidades de financiamento.”

Os especialistas dizem que medidas como a ampliação do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), anunciada pelo ministro Guido Mantega no início da semana, têm impactos limitados na taxa de câmbio. “O que podemos fazer para segurar o câmbio é muito pouco. O real está se valorizando por algumas falhas estruturais da economia brasileira. É como alguém que está engordando e coloca a culpa na cozinha”, afirma Roberto Luis Troster, doutor em economia e ex-economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban).

Em relatório, Mauricio Oreng, economista do Itaú Unibanco, diz que existem outras armas no arsenal, que poderão ser usadas de acordo com o contexto. Entre elas, Oreng cita aumentar as intervenções no câmbio pelo Banco Central e/ou pelo Fundo Soberano, tanto no mercado à vista quanto no Swap; limitar as posições vendidas em dólar dos bancos; impor quarentena sobre o capital estrangeiro; e subir ainda mais o IOF, possivelmente focando também nas entradas de recursos para bolsa e derivativos.

Pesa, ainda, na conta brasileira o diferencial de juros, que atrai ainda mais o capital estrangeiro. “É preciso adaptar a política cambial brasileira a essa guerra cambial mundial e ao fluxo enorme de capitais que vem para o Brasil. O País evoluiu muito na macroeconomia, mas mantém estranhamente os juros muito altos”, completa Antonio Correa de Lacerda, da PUC-SP. 

Virada do jogo

Para Zeina Latif, do RBS, o Brasil deve se adaptar ao cenário de moeda valorizada, que não deve mudar no médio prazo. Ela defende a adoção de medidas que deem competitividade para as empresas, como, por exemplo, a reforma tributária e a redução da burocracia. “Não dá para lutar contra o dólar, mas temos que reforçar a competitividade das empresas”, diz.

O economista da Gradual Investimentos, André Perfeito, afirma que o real valorizado abre novas oportunidades para o Brasil. “Deveríamos aproveitar o momento de real forte e juros baixo no mundo para aumentar a produtividade da economia brasileira.”

“Precisamos melhorar portos, aeroportos, as indústrias. Este era o momento de o Brasil aproveitar para avançar e não para criar uma barreira contra a valorização do real”, completa.

 

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