Empresas de Eike perdem R$ 11 bi em valor de mercado no ano

 

O valor de mercado total das empresas nas quais Eike Batista tem participação caiu R$ 11,7 bilhões em 2011, até o último fechamento da Bovespa na quarta-feira, segundo estudo da consultoria Economatica divulgado nesta quinta-feira. No final do ano passado, as seis companhias valiam juntas R$ 87,2 bilhões, ante R$ 75,4 bilhões em 9 de fevereiro. O valor de mercado é calculado pela multiplicação do número de ações pela cotação de fechamento no período desejado.

De acordo com o levantamento, a empresa com a maior queda de valor de mercado nominalmente é a OGX Petróleo, que encolheu R$ 9,5 bilhões com a queda de 14,8% no preço das ações ordinárias. Já a MMX Mineração viu o maior recuo percentual no valor das ações, de 18,7%. Das seis ações de empresas listadas na Bovespa, somente as da MPX Energia apresentaram ganhos no período, com alta de 21,9%.

Confira o desempenho do valor de mercado e a variação no preço das ações (entre parenteses) em 2011 das empresas de Eike listadas na Bovespa, segundo a Economatica:

LLX Log: -R$ 513 mi (-15,6%)
MMX Miner: -R$ 1,23 bi (-18,7%)
OGX Petroleo: -R$ 9,5 bi (-14,8%)
OSX Brasil: -R$ 908 mi (-16,8%)
PortX: -R$ 357 mi (-9,7%)
MPX Energia: +R$ 787 mi (+21,9%)

    "Analistas desvirtuaram dados técnicos", reclama Eike Batista

    Empresário reage a queda de ações no mercado com queixas de analistas e anúncios de produção de petróleo e "Carajás do Carvão"

    Depois de ver suas ações desvalorizando no mercado de capitais nos últimos meses, o empresário Eike Batista resolveu reagir. O presidente do grupo EBX convocou a imprensa para uma teleconferência na qual negou que esteja com problemas de saúde ou desinteressado pelas atividades de suas empresas. E reclamou dos analistas de mercado.
    “Os analistas desvirtuaram dados técnicos apresentados por nós. Não sei por que fizeram isso”, afirmou. “Talvez o mercado tenha interpretado errado nossas ações”, acrescentou, em referência a especialistas que teriam deixado de recomendar papéis de suas empresas para investidores.

    Os papéis da OGX, empresa de petróleo de Eike Batista, recuaram 16,75% neste ano, segundo levantamento da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) realizado a pedido do iG. No mesmo período, as ações da Petrobras se valorizaram 1,47% e as da novata HRT Petroleum, 15,7%.

    “Pode ter sido minha culpa por não ter vindo aqui falar antes com vocês, apresentar o andamento de minhas empresas antes”, justificou Eike Batista.

    Antes da conferência com jornalistas, a OGX divulgou ao mercado que vai começar a produzir petróleo em caráter de teste. A empresa informou que terminou de perfurar, na Bacia de Campos, o poço que faltava para iniciar o Teste de Longa Duração (TLD) no bloco BM-C-41.

    Projeto do Porto do Açu, no norte do Rio de Janeiro, onde haverá um complexo industrial

     

    Projeto para Dilma

    Eike Batista também anunciou hoje que vai criar uma empresa a partir de uma mina que ele descreve como "Carajás do Carvão". Descoberta na Colômbia, a jazida estava contabilizada nos ativos de sua empresa de energia, a MPX. A nova empresa do grupo EBX deverá se chamar CCX e terá seu capital aberto até o início de 2012. A ideia inicial é abrir o capital da empresa no Brasil, mas também nas bolsas de Londres e de Bogotá. A companhia nasce com um bilhão de toneladas de carvão, segundo a EBX, e investimentos de US$ 100 milhões. Segundo Eike, uma das maiores vantagens da reserva é a proximidade com o oceano, raridade para este tipo de matéria-prima. 

    Entre outras boas notícias, o empresário também disse que duas de suas empresas vão começar a gerar caixa em agosto, entre elas a OGX. E que vai levar para a presidente Dilma o projeto da fábrica de automóveis que deve ser construída no Porto do Açu com investimentos da ordem de US$ 1 bilhão. O executivo não revelou o nome da empresa que vai liderar o empreendimento, do qual o grupo EBX deverá fazer parte.

     

    Conheça a Eikelândia, a obra mais arrojada de Eike Batista

    No litoral fluminense, bilionário constrói porto e quer atrair empresas de aço, cimento, carro, produtos Apple, além da cidade "X"

    A ponte mede quase três quilômetros de comprimento. Nasce em solo arenoso e avança sobre o mar adentro. Está montada sobre 662 estacas fincadas no fundo da água que se enfileiradas teriam a distância de 38 quilômetros. Sua estrutura tem a largura de 27,5 metros, que permitirão não só a passagem de uma gigantesca correia de transporte de minério de ferro como também a circulação de caminhões pesados.

    Na ponta da ponte em alto-mar, a temperatura supera os 30 graus. O forte vento reduz a sensação térmica, mas deixa o mar agitado. As primeiras pedras lançadas para a construção do quebra-mar já começam a aparecer na superfície e vão proteger os navios que chegarão no futuro porto que está sendo construído. Ao todo, serão lançados 1,8 milhão de metros cúbicos de blocos de pedras no mar, o equivalente ao morro do Pão de Açúcar.

    Quando estiver pronto, o porto acomodará dez berços de atracação. O calado natural de 15 a 18 metros já seria suficiente para navios Panamax, nas medidas que cruzam o canal do Panamá. Mas as obras de dragagem vão aumentar a profundidade para 25 metros, o que inclui a nova geração de meganavios Chinamax, com capacidade carga de mais de 350 mil toneladas de minério, que hoje chegam apenas a poucos portos existentes no mundo.

    A obra Superporto do Açu começou no fim de 2007. Até sua conclusão, prevista para 2012, receberá investimentos de R$ 4,5 bilhões. Mas o porto e a estrutura para o transporte do minério serão uma migalha se comparados a todos os projetos sonhados pelo empresário para a região.

    Se o plano idealizado por Eike Batista se materializar, os investimentos - um complexo industrial integrado às atividades portuárias além de um megaempreendimento residencial para acomodar dezenas de milhares de pessoas - vão transformar São João da Barra, município com 32 mil habitantes do litoral norte fluminense, numa verdadeira “Eikelândia”.

    O Superporto do Açu é o cartão-postal mais vistoso dos empreendimentos do oitavo homem mais rico do mundo, segundo ranking da revista “Forbes” divulgado em março de 2010. Quase todas as empresas do grupo EBX, o conglomerado empresarial criado pelo multibilionário, composto por uma sopa de siglas todas com a palavra “xis”, têm planos de investimentos no complexo, que fica a pouco mais do que três horas de carro da cidade do Rio de Janeiro.

    A empresa de logística LLX responde pelas atividades portuárias; a de energia MPX planeja construir duas usinas térmicas, uma movida a carvão importado (2.100 MW) e outra a gás (3.330 MW), similar à oferta de energia firme de Itaipu; a empresa de construção naval OSX prevê instalar seu estaleiro. A OGX é outra potencial candidata a ter uma base local: a empresa de petróleo e gás tem direitos na exploração de blocos na bacia de Campos, a menos de 300 quilômetros da costa.

    O grupo empresarial de Eike Batista já teve mais coisa na área do complexo do Superporto do Açu, mas vendeu. A MMX, empresa de mineração de Eike, tinha montado um sistema que incluía a exploração de uma mina em Minas Gerais, o mineroduto de 500 quilômetros para o carregamento da matéria-prima até Açu, onde será beneficiado e transportado pelo porto ao exterior. Mas juntamente com outro projeto no Amapá, Eike Batista vendeu o negócio por US$ 5,5 bilhões para a Anglo American, uma das maiores do setor no mundo. A mineradora Anglo continua com as obras no complexo, e o prazo de conclusão é o mesmo ano quando houver a finalização do porto.

    Além dos negócios próprios, o plano para a Eikelândia contempla a instalação de outros grandes empreendimentos. Numa área de 90 quilômetros quadrados, equivalente a cidade de Vitória (ES), o bilionário brasileiro pretende atrair duas siderúrgicas – uma já assinou contrato com os chineses da Wisco, uma das três principais produtoras de aço do país asiático.

    A outra foi fechada com os ítalo-argentinos da Ternium-Techint, um dos maiores fabricantes de aço da América Latina. Cada uma das siderúrgicas terá fábricas de cimento como vizinha - a Votorantim e a Camargo Corrêa, as duas maiores empresas brasileiras do setor, já assinaram acordos de intenção de investimento com as empresas de Eike.

    O empresário já indicou seu interesse em atrair uma montadora de carros. Toyota? Suzuki? Essas são as marcas especuladas pelos moradores da região. Carro chinês? Carro elétrico? O Nano? O nome não é revelado pelo empresário em suas entrevistas ou mensagens pelo Twitter. Pouco se sabe sobre boa parte dos 60 memorandos de entendimentos assinados pelas empresas de Eike, que não abre as informações alegando por questões de confidencialidade.

    Para completar o conjunto de projetos, indignado pelo fato de o consumidor brasileiro pagar mais do que o dobro para ter acesso um iPad, o bilionário empresário disse que gostaria de atrair uma fabricante de produtos da Apple para sua “Eikelândia”. O investimento total é estimado em US$ 36 bilhões.

    Equipamentos pesados

    Guindastes gigantescos, caminhões pesados novíssimos, estradas de acesso recém-asfaltadas. Aos poucos, a paisagem está sendo drasticamente redefinida pelas novas construções. Os canteiros de obras ocupam espaço em fazendas dedicadas antes à pastagem.

    Moradores do município contemplam a obra como se estivessem em um grandioso parque de diversões, vendo a Disneylândia pela primeira vez. A LLX, a empresa responsável pelo porto, mantém um programa de recepção local e registra mais de 2 mil visitas anuais, o que dá quase 10% da população.

    A entrada é monitadora por segurança privada. Depois de percorrer uma estrada de terra, cercada por uma vegetação rasteira, passa-se um heliponto até chegar à recepção, uma construção ao melhor estilo das mansões de praia: ampla, com pé direito alto e iluminação natural.

    Um gramado que cerca a construção e é servido por um sistema de irrigação torna o ambiente um oásis no meio do solo pouco fértil desta região conhecida como Açu, que fica no 5º Distrito, no parte sul do município de São João da Barra. No ambiente com ar condicionado, que contrasta com o calor  abafado do lado de fora, o painel exposto na parede impressiona pela quantidade de construções do complexo porto-indústria.

    À frente dele, uma maquete, recentemente desatualizada pela decisão de erguer o estaleiro ali, que era disputado também por Santa Catarina. A construção tem ainda uma sala de cinema para pelo menos 50 pessoas, onde é projetado um filme os negócios do empresário, amplos banheiros, escritório e um pequeno alojamento. As pessoas que trabalham ali são simpáticas e atenciosas e exigem o cuidado com as normas de segurança numa obra desta magnitude.

    Um vídeo com a imagem aérea da ponte dá a dimensão exata da grandiosidade. A ponte de três quilômetros do porto já atraiu a atenção de jornalistas do mundo inteiro. A rede de TV CNN sobrevoou a estrutura do porto de helicóptero. O jornal “Washington Post” esteve aqui chamando a atenção de que o empreendimento está saindo do chão por conta do interesse chinês em obter recursos naturais – minério de ferro é o principal deles.

    Superporto do Açu: Metade da mão de obra contratada para as obras vem da região; Quando os projetos estiverem prontos, promessa é gerar 50 mil postos de trabalho

    Na maioria das apresentações realizadas para investidores, a ponte é mostrada como o caminho para o

    desenvolvimento de uma região, que deve gerar 50 mil empregos diretos quando tudo estiver pronto, segundo números divulgados pela empresa.

    No estágio atual da obra, trabalham cerca de 2,5 mil pessoas, das quais mais da metade da região, principalmente nas funções mais básicas. Engenheiros e técnicos mais especializados foram “importados” e ocupam boa parte das pousadas da região.

    As projeções divulgadas pela prefeitura indicam que a população de São João da Barra irá crescer dos atuais 32 mil para cerca de 250 mil pessoas em um prazo de até 15 anos. A prefeitura lançou um plano de obras de infraestrutura, com investimentos de R$ 80 milhões para os próximos anos, que inclui redes de água e esgoto.

    Seis postos de saúde, cinco creches, duas novas escolas foram construídos. Abriram-se vagas para o ensino técnico voltado, por exemplo, para operadores logísticos e metal-mecânico. Além disso, 180 alunos estão tendo aulas de mandarim para comunicar-se com os chineses que vão trabalhar numa das duas siderúrgicas esperadas no complexo industrial.

    Não à subhabitações

    Para atender a demanda, a prefeitura calcula a construção de 84 mil novas unidades habitacionais. “Estamos nos preparando para atender esse forte crescimento e desenvolver o pessoal que aqui está”, diz a prefeita de São João da Barra, Carla Machado (PMDB). Mas ela adverte que não quer que o município acomode bolsões de pobreza, com o surgimento de favelas. “Quem vier para cá e se estabelecer em barracos será retirado”, afirma.

    Para acomodar o crescimento populacional, o grupo EBX decidiu criar, do zero, a “cidade X”, uma área anexa ao complexo porto-indústria. O empreendimento tem meta de atender 250 mil pessoas, embora a prefeitura avalie que não será para mais do que 150 mil habitantes. Será desenvolvido pela REX, a empresa imobiliária da Eike.

    Para tanto, o empresário convidou o arquiteto e urbanista Jaime Lerner, ex-governador do Paraná, para criar uma cidade modelo. “A ideia é garantir habitação com infraestrutura, de modo que o crescimento urbano seja planejado e ecologicamente sustentado”, explica a empresa. Uma das propostas em estudo é o uso de bicicletas e de carros elétricos. “Não queremos também que a cidade X seja um condomínio fechado”, diz a prefeita. “Não é possível ter um município fragmentado.”

    Bebida milagrosa

    Por anos, São João da Barra viveu de atividades pesqueira, pecuária e agrícola, como a cana de açúcar - até a falência das usinas existentes na vizinha Campos de Goytacazes. Tornou-se durante os anos 1970 e 1980 nacionalmente conhecida por causa da propaganda de um conhaque de alcatrão, fabricado pelo grupo Thoquino, conhecido como “o conhaque do milagre”, capaz de curar os males dos enfermos por artrite.

    “Era a maior empresa de destilados do Brasil, até a entrada das companhias estrangeiras”, diz Victor Aquino, secretário de Planejamento de São João da Barra e um dos mais de 100 herdeiros do grupo de bebidas. “Fazia muito sucesso. Chegou ao “Guiness Book”, o Livro dos Recordes, como o conhaque mais vendido no mundo em número de doses”, orgulha-se Aquino, que, em seguida, faz a ressalva: “conhaque bom mesmo é vendido em garrafa”.

    Atualmente, o município vive da atividade de turismo, com a vinda de hordas de mineiros para as praias de Atafona e Grussaí - curiosamente, o maior hotel do município, com 600 quartos, é o Sesc, de Minas Gerais, cuja cidade mais próxima fica a cerca de 200 quilômetros.

    Mas o que mais gera receita e mantém a cidade é a receita oriunda dos royalties do petróleo retirado do campo de Roncador, um dos maiores da Petrobras, na bacia de Campos. As transferências de recursos garantem cerca de R$ 200 milhões do orçamento anual de R$ 250 milhões a ser realizado em 2010.

    Arrecadação em crescimento

    A prefeitura já nota aumento na arrecadação com o ISS, o imposto sobre serviços, por conta das transformações geradas pelo Porto de Açu. Em 2007, a receita com ISS foi de R$ 1,6 milhão, valor que chegou a R$ 8 milhões no ano passado. “Apenas o estaleiro do Eike vai gerar mais R$ 35 milhões em recursos próprios ao município”, diz Aquino, confiante de que o empreendimento dará à cidade de São João da Barra independência financeira. A prefeitura já prepara uma atualização do mapa de georeferenciamento para fixas novas cobranças de IPTU e ISS.

    Victor Aquino, secretário de Planejamento de São João da Barra: "novo" Eldorado

    Aquino diz que São João da Barra vive uma fase de “novo Eldorado” brasileiro. Ele nasceu em Campos, nunca trabalhou na fábrica da família e mudou-se para a cidade do Rio de Janeiro há três décadas para estudar e trabalhar como arquiteto.

    Conheceu Eike Batista quando o empresário fez um investimento na área de saúde e convidou o arquiteto para fazer um projeto de consultórios hospitalares. Há três anos, fascinado com o Superporto do Açu, Aquino decidiu voltar à região de São João da Barra e ajudar a implantar o empreendimento de Eike.

    “Sou uma espécie de Severino, ajudando a destravar tudo”, brinca. “Aqui as oportunidades existem. Quem for um bom profissional se dará bem”, diz. Quando sair da prefeitura, ele mesmo espera colher essas oportunidades com seu negócio na área de arquitetura “Espero ganhar muito dinheiro no futuro, obviamente não serei um bilionário como o Eike”, diz.

    O primeiro shopping da cidade começa a sair da maquete. A SuperBom, uma rede de supermercados de Campos, acena com a abertura de uma filial na cidade vizinha. A cidade tem duas agências bancárias, uma do Banco do Brasil e outra do Itaú. A Caixa Econômica Federal deve abrir uma filial, assim como se espera o mesmo do Bradesco e Santander.

    Determinadas cidades nascem da junção de pessoas com empresas que buscam explorar seus recursos naturais. A mineira Ipatinga era uma cidade de 3 mil pessoas que cresceu à sombra da siderúrgica Usiminas. A cidade fluminense de Volta Redonda nasceu com a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). As duas cidades são consideradas exemplos do desenvolvimento industrial brasileiro.

    Mas há casos de tremendo fiasco. Henry Ford, o empresário que revolucionou a indústria automobilística, criou uma cidade do zero no meio da floresta Amazônica para extrair das seringueiras o látex utilizado na fabricação de pneus aos carros que vendia nos Estados Unidos. A “Fordlândia” durou pouco mais de 15 anos e virou uma cidade abandonada perto de Santarém, no Pará. Delírio ou não da mente dos empreendedores, o tempo vai dizer se Eike Batista concretizará os projetos empresariais, transformando São João da Barra na sua “Eikelândia”.

    Heliponto com vista da ponte ao fundo: maior cartão postal dos projetos de Eike Batista

    Heliponto com vista da ponte ao fundo: maior cartão postal dos projetos de Eike Batista

     

    Novata do petróleo, HRT tem ações mais valorizadas que Petrobras e OGX

    Fundador da empresa previu o pré-sal e vai buscá-lo na África: "a Namíbia é a Bacia de Santos"

    Márcio Mello entre os continentes sul-americano e africano

    O que tem a HRT Petroleum, empresa que levantou R$ 2,5 bilhões em estreia no mercado de capitais, em outubro, e desde então supera as veteranas Petrobras e OGX em valorização de ações? Para executivos e analistas do setor, parte da resposta está na carteira de blocos exploratórios “prontos” que a empresa adquiriu – com descobertas já realizadas pela Petrobras no passado. Também conta a favor da companhia a estratégia de buscar petróleo em região da costa africana que, segundo seu fundador, o geólogo Márcio Mello, é análoga ao pré-sal brasileiro.

    “A Namíbia é a Bacia de Santos. Aqui no Brasil, a Bacia de Santos já tem dono, então estamos indo para a Namíbia”, conta Mello ao iG, em entrevista concedida na sede de sua empresa, no Rio. O tapete branco e fofo da sala privilegiada pela paisagem da praia de Copacabana é a justificativa para o uso de pantufas ou sandálias de borracha croc por ele e outros funcionários, mas a exigência também era feita para entrar em seu laboratório em Botafogo, onde aparentemente não havia carpete algum.

    Além das pantufas, Mello é conhecido por estudos que mostraram o que as perfurações da Petrobras provaram anos mais tarde. Há vinte anos, o geólogo publicou livro em que apontava a semelhança do petróleo brasileiro com o africano, bem como a arquitetura geológica de regiões abaixo do sal que hoje revelam ter bilhões de barris. Os tipos de rochas, os altos de embasamento (montanhas do fundo do mar) e o óleo da costa da Namíbia e de parte de países vizinhos são os mesmos que os encontrados nas bacias de Santos, Campos e Espírito Santo – onde estão as maiores reservas brasileiras. Não siginifica que a empresa encontrará, necessariamente, reservatórios tão grandes, mas as semelhanças apontam para a possibilidade de sucesso exploratório. Entusiasmado, ele mostra à reportagem duas imagens praticamente idênticas em 3D. Uma das áreas da Namíbia e a outra, segundo ele, do campo de Júpiter, na Bacia de Santos.
    A empresa pretende realizar neste ano os levantamentos geofísicos necessários para perfurar os blocos que possui na Namíbia. São quatro áreas com extensão equivalente a toda a Dinamarca. Em 2012, a empresa pretende perfurar a profundidade de 4,5 mil metros – o que, segundo Mello, vai diferenciá-la das outras empresas no local. “As outras não perfuraram fundo. Tem que ir muito fundo para encontrar os grandes reservatórios que existem lá”, afirma o ex-presidente da Associação Brasileira de Geólogos do Petróleo (ABGP).

    Em 2000, cinco anos antes das primeiras descobertas nos blocos que originaram Lula (ex-Tupi) e vizinhos, Mello defendeu o potencial abaixo da camada de sal. Ele estima, aliás, que as reservas em todo o pré-sal brasileiro superam 100 bilhões de barris. O Brasil hoje possui reservas provadas de 12 bilhões que ainda não incluem as descobertas do pré-sal de Santos.

    O conhecimento do geólogo com mestrado e doutorado em geoquímica pela Universidade de Bristol, na Inglaterra, o levou a prestar serviços para as maiores petroleiras do mundo, depois de 24 anos na Petrobras. “O mercado também precifica isso, a experiência do Márcio é conhecida”, observa Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infra-estrutura (CBIE).

    Semelhanças com Eike

    Segundo analistas, o time de funcionários, conhecidos no mercado, também tem dado fôlego à HRT, segundo analistas, assim como contribuiu para a OGX valorizar bastante suas ações nos primeiros anos de criação. Márcio Mello chamou para trabalhar com ele, por exemplo, Nelson Narciso e John Forman, ex-diretores da Agência Nacional do Petróleo (ANP), além de Oswaldo Pedroza, ex-Petrobras que também passou pela reguladora. "O Márcio é um tremendo empreendedor, soube montar um time e tem ampla experiência, por isso está dando certo. Parece com o Eike", comenta um executivo que já trabalhou com o geólogo.

    Eike 

    Pantufas e sandálias de borracha marcam a rotina de funcionários da HRT

    Um ano após ser criada, em outubro de 2010, a empresa lançou-se no mercado de ações e atraiu cerca de 350 investidores. Desde então, os preços das ações da companhia cresceram 57% - até a última sexta-feira (4). Os papéis da OGX, de Eike Batista, perderam 23,8% de valor, enquanto a Petrobras subiu 15,2% na Bovespa, segundo informações da própria Bolsa. Bem verdade, ponderam especialistas, que a valorização no período pós IPO é comum e também ocorreu com a OGX.

    “A HRT tem muitas semelhanças com a empresa do Eike. Eles adquiriram, por exemplo blocos com descobertas realizadas pela Petrobras no passado”, acrescenta Pires. De fato, 11 descobertas já foram realizadas nos 21 blocos que a HRT adquiriu na Bacia do Solimões.

    “Mas esta região apresenta dois problemas que acabam por encarecer os projetos da HRT: requer extremo cuidado ambiental e fica longe do mercado consumidor”, pondera Pires. Tanto a OGX como a HRT adquiriram blocos que já foram da Petrobras e que foram deixados de lado não por falta de petróleo, mas porque o preço do barril não compensava tantos desafios, lembram especialistas.

    Meta duvidosa
    Outro especialista que também conhece Mello reitera o potencial das áreas exploratórias da HRT, mas duvida do cumprimento de suas metas de produção. "Acho praticamente impossível produzir neste ano petróleo naquela região complicada que é a Amazônia", conta, pedindo para não ser identificado. Os planos da HRT, apresentados aos investidores, incluem a ousada meta de extrair petróleo da bacia do Solimões ainda em 2011, mesmo ano em que vai-se perfurar o primeiro poço.

    A campanha exploratória na Amazônia prevê a perfuração de 12 poços. O primeiro está previsto para este mês, se tudo der certo. Para tanto, quatro sondas de perfuração foram contratadas. A primeira está a caminho do ponto em que vai perfurar. Chegou a Manaus de navio e segue por balsas pelos rios da floresta até a base de Paulo Moura. De lá, será transportada por helicóptero até o poço, numa distância de cerca de 14 quilômetros.

    A HRT tem 2,03 bilhões de barris em reservas estimadas, das quais metade está na bacia do Solimões e a outra na Namíbia. O maior investidor da empresa é a South-Easten Asset Management, com 12% do capital total. Márcio Mello possui 7% das ações.

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