Fábricas têxteis centenárias param pela alta do preço do algodão

Sem crédito e caixa, empresas não têm recursos para comprar matéria-prima e desligam as máquinas; problemas de gestão são antigos

Os 500 funcionários da fábrica de tecidos Schlösser encontraram os portões fechados quando voltaram de férias coletivas em janeiro deste ano. No mesmo mês em que completou cem anos de atividade, a Schlösser, umas das três indústrias têxteis mais antigas do polo de Brusque, em Santa Catarina, optou por parar a produção.

A empresa sobreviveu às crises internacionais de 1929 e de 2008 e a sete trocas de moedas brasileiras, dos réis ao real, mas não suportou a recente disparada do preço do algodão, sua principal matéria-prima. Endividada, a companhia não tinha nem caixa nem crédito para pagar pelo mesmo insumo o triplo do preço cobrado há um ano. A solução foi desligar as máquinas e deixar os funcionários de licença, até agora, não remunerada.

“Nunca imaginei que a empresa chegaria neste ponto”, afirma o puxador de rolo Marcio Machado, funcionário da Schlösser há 21 anos. Segundo ele, a empresa já teve outros problemas, mas nunca tinha fechado a fábrica. Prestes a se aposentar, ele só vai procurar outro emprego se a empresa decretar falência.

Os colegas Rodrigo de Melo e Valdonei Silveira não podem fazer o mesmo. “Sem salário não dá. Estou vivendo com o cartão de crédito e com aluguel, luz, água e a faculdade atrasada”, diz Silveira.

O caso da Schlösser retrata as últimas conseqüências dos impactos da elevação dos preços do algodão na indústria têxtil. A cotação do algodão em pluma voltou a bater recorde nesta segunda-feira, a R$ 3,96, um aumento em 12 meses de 175%, segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea).

O preço atinge diretamente o caixa das companhias. O custo de um caminhão com 27 toneladas do produto saltou de R$ 80 mil para R$ 250 mil neste período, de acordo com a consultoria Cotton & Fios.

O preço maior da matéria-prima foi a gota d`água para um setor que já vem debilitado desde a abertura comercial do Brasil, no final dos anos 90. “A alta do algodão vai afetar toda a cadeia têxtil e todas as regiões do Brasil”, afirma Fernando Pimetel, diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit). O impacto, no entanto, será maior nas companhias de fiação e tecelagem, que compõem o início da cadeia produtiva, onde o algodão representa mais de 60% dos custos totais.

Máquinas na fábrica da Atlântica Toalhas, em Brusque (SC)

É o caso das centenárias Buettner, Tecidos Carlos Renaux e Schlösser, as maiores companhias do polo têxtil de Brusque, cujos nomes batizaram ruas, escolas e até times de futebol na cidade. Sem se preparar para eventuais oscilações na cotação do algodão, elas não tiveram recursos suficientes para comprar matéria-prima e pagar os salários em dia.

A Schlösser precisou cancelar pedidos no valor de R$ 6 milhões em janeiro, já que não tinha algodão para produzir. A Buetnner não conseguiu repassar o custo maior para os varejistas e decidiu reduzir a produção.

Não foram as únicas. O sindicato da indústria têxtil da região de Brusque estima que a retração nas fábricas da cidade alcance 30% da produção. Na Atlântica Toalhas, empresa que produz 250 toneladas por mês, o terceiro turno foi suspenso há 15 dias para ajustar a produção à queda da demanda. Alguns funcionários foram dispensados, outros, como Aparecido Dias, foram transferidos para o turno da manhã.

Além da Schlösser, os casos mais graves são da Juritex e da Tinturaria Silveira, que também fecharam as portas. Sem demanda das malharias, a Tinturaria Silveira dispensou os cerca de 30 funcionários. O único que continua a trabalhar é Ricardo Maurice, 40 anos, que operava o secador de malhas, mas foi transferido para o posto de vigia. Apesar da crise, ele não teme o desemprego. “Nunca fiquei parado. Saio de uma empresa e entro em outra”, diz o trabalhador, que atua há 15 anos no setor têxtil.

Já os colegas Zaqueu Luchini, Rogério Leoni e Marcio Vogel assistiram à quebra da Juritex pela segunda vez. Eles trabalharam na empresa anos atrás, quando ela ainda se chamada Tecelagem Rio Branco, nome que foi deixado para trás após sua falência, em 2006. Agora, trabalham em frente à companhia, na Atlântica Toalhas, e viram o portão da antiga empresa fechar novamente há duas semanas. “Eu ainda estou esperando para receber meus direitos de quando ela faliu pela primeira vez. Agora que quebrou de vez não sei como vai ser”, diz Vogel.

Benefícios

Márcio Vogel, que aguarda direitos trabalhistas da primeira falência da Juritex


A manutenção dos empregos é o grande argumento do setor para negociar medidas de socorro com o governo. Hoje, o setor têxtil é o segundo maior empregador da indústria de transformação, com 1,7 milhão de vagas formais no país, 160 mil delas em Santa Catarina. “A indústria têxtil passou por toda a crise de 2008 sem medidas específicas de apoio para o setor, ao contrário da indústria automotiva e da linha branca. Se não tivermos um auxílio agora, teremos notícias mais dramáticas de desemprego”, diz o diretor da Abit.

Entre os pedidos da entidade estão linhas de crédito específicas para o setor, desoneração emergencial da folha de pagamento e medidas que deem prioridades de compra de algodão brasileiro para a indústria nacional na próxima safra. Até agora, o setor não conseguiu nenhuma ação do governo federal. Em Santa Catarina, o governo deu incentivos para o pagamento do ICMS para o setor.

João Marchewsky, presidente de Buettner

A falta de crédito é um dos maiores entraves do setor. A Buettner, por exemplo, tentou conseguir linhas para capital de giro no BNDES, mas não foi aprovada. Como tem dívidas tributárias, ela não consegue emitir a Certidão Negativa de Débito (CND). “Não estamos aqui de brincadeira. A empresa é centenária, mas não consegue crédito no BNDES”, afirma o presidente da Buettner, João Marchewsky.

As indústrias mais antigas têm uma necessidade maior de capital de giro. Elas adotaram a fabricação própria de todos os componentes da cadeia, desde o fio. A mais antiga delas, a Tecidos Carlos Renaux, de 1892, produziu até os tijolos usados na construção e expansão da fábrica até a Segunda Guerra Mundial.

Como os prazos entre a compra de algodão e a venda de tecidos são longos, a necessidade de caixa e crédito é maior. “No decorrer dos anos, as empresas deixaram de pagar impostos e não têm mais acesso a crédito. Tiveram que recorrer aos agiotas para ter capital de giro e vêm pagando há anos juros insustentáveis”, afirma o presidente do sindicato das indústrias têxteis da região de Brusque, Marcos Schlösser.

Esse modelo de gestão é considerado ultrapassado pelos próprios administradores destas companhias. A Tecidos Carlos Renaux decidiu reestruturar a companhia e vendeu sua parte de fiação neste mês. A Buettner também estuda mudanças neste processo e pode até criar uma empresa separada para gerenciar a fábrica de fios.

Indefinição na Schlösser

Para evitar a própria falência, a Schlösser terá que tomar medidas mais drásticas. Com um passivo estimado em R$ 150 milhões e sem caixa para comprar matéria-prima ou religar a energia elétrica, a companhia depende de investimentos externos para voltar a operar.

Funcionários colocam faixas em frente à Schlösser, com pedido de reativação

Na última quarta-feira, os funcionários da empresa encontraram motivos para ter esperanças. Um investidor de Curitiba (PR) pediu uma avaliação da empresa para a consultoria Lopez & Souza. “A proposta depende de um acordo com os credores para evitar uma sequência de pedidos de falência depois da aquisição da empresa”, afirma o consultor Lucio Lopez, que não informa o nome do investidor.

Segundo ele, a empresa precisará de uma injeção de capital imediata de, no mínimo, R$ 4 milhões, apenas para pagar salários e energia elétrica. Antes do seu cliente, a empresa recebeu outra proposta de compra no fim do ano passado, mas foi recusada pelos acionistas.

Lopez estima que dessa vez há interesse na venda. “A situação da empresa ficou mais adversa. É como se estivesse em parada cardíaca. E agora precisa de um choque”, diz.

 

Fábrica mais antiga de Brusque vai comprar tecido pronto da China

Tecidos Carlos Renaux, criada em 1892, suspendeu produção de fio e começará a distribuir tecidos chineses

Dois anos depois que se aposentou da presidência da Tecidos Carlos Renaux, a indústria têxtil mais antiga do polo de Brusque, Rolf Bückmann, de 70 anos, reassumiu a gestão da companhia em dezembro do ano passado para evitar o seu colapso.

Com a crise do algodão, a empresa ficou sem caixa para comprar matéria-prima e pagar os salários e por pouco não quebrou. No plano de salvamento da companhia, Bückmann apostou em duas medidas polêmicas: a venda da unidade de fiação e importação de tecidos prontos, para distribuição no Brasil.

Rolf Bückmann, presidente e acionista da Tecidos Carlos Renaux

O primeiro contêiner com 55 mil metros de tecidos chineses chegará ao Brasil em 30 dias. Eles serão revendidos com a marca Renaux para atacadistas de tecido e confeccionistas que abastecem as grandes redes de varejo do Brasil. “Não comprávamos nada dos chineses, mas agora esse é meu desenho estratégico. É mais barato e eles têm condições melhores para produzir”, diz Bückmann, que junto com seu irmão detém metade das ações da companhia.

A decisão da Renaux é um exemplo do processo de desindustrialização pelo qual passa a cadeia têxtil brasileira. Em vez de produzir no país e enfrentar a competição com a China, as indústrias optam por importar e distribuir produtos asiáticos. “É uma desindustrialização. Mas, hoje, os casos de empresas bem-sucedidas no setor têxtil são os de empresas que fazem isso”, afirma Marcos Schlösser, presidente do sindicato das indústrias têxteis da região de Brusque.

O processo ainda é lento no setor de fios e tecidos de alto valor agregado, um dos pontos fortes do polo de Brusque. Mas, em regiões onde o principal segmento da indústria têxtil é formado por confecções, o nível de desindustrialização é maior. “Em Jaraguá do Sul, cerca de metade das indústrias distribui produtos chineses”, afirma Schlösser.

Dinheiro rápido

A Renaux quer conseguir 30% do seu faturamento com a distribuição de produtos chineses. A empresa já fabricou tecidos populares até o final da década de 90, mas saiu do mercado justamente por não conseguir competir com os importados asiáticos. O foco atual da empresa são os tecidos de alta costura que atendem grifes como Richards, Le Lis Blanc e Brooksfield.

Antiga fiação da Teecidos Carlos Renaux, unidade foi vendida neste mês

A distribuição de produtos importados é uma das iniciativas da Tecidos Carlos Renaux para tentar obter  uma geração de caixa mais rápida. Outra decisão neste sentido foi a venda da unidade de fiação, acertada há duas semanas.

Até janeiro, a Renaux produzia 95% dos fios usados nos seus tecidos. Mas, além de a operação de fiação ser deficitária, o sistema aumentava os prazos do fluxo de caixa da companhia. O ciclo formado entre comprar algodão, fabricar fios, transformá-los em tecidos, vender e receber os pagamentos levava cerca de 180 dias. Esse prazo vai cair pela metade agora que a empresa vai comprar fios prontos.

Para reestruturar a empresa, Bückmann precisou deixar para trás as emoções. Engenheiro mecânico e eletricista, ele é o autor do projeto da fiação que acaba de vender. “Foi difícil. É mais difícil desaprender um negócio do que aprender”, disse. Avaliada em R$ 40 milhões, a unidade foi vendida pela metade do valor à metalúrgica Irmãos Fischer, que ocupa o terreno de frente. 

O coração também ficou de lado na hora de gerenciar a equipe. Parentes e funcionários antigos foram afastados da empresa. E os representantes comerciais agora terão que cumprir metas de vendas.
As ações visam dar continuidade à primeira indústria têxtil do polo de Brusque. Bisneto do fundador da companhia, o imigrante alemão e cônsul Carlos Renaux, Bückmann diz que não deixa mais o comando da empresa. “Só saio daqui quanto eu morrer”, diz. “Não, não é verdade. Quando eu tiver 105 anos posso pensar em me aposentar de novo”, corrige.

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