Perfeccionismo exagerado causa sofrimento

Perfeccionismo exagerado causa sofrimento e pode esconder outros problemas

Não poderia ser outro nome: “Cisne negro”, filme do cineasta Darren Aronofsky, é uma narrativa sobre a busca doentia pela perfeição. Se, no conto original que inspirou Tchaikovsky na composição de o “Lago dos Cisnes”, o pássaro branco era confrontado com o pássaro negro – praticamente um símbolo daquilo que impede a felicidade -, no cinema a personagem vai, lentamente, dando força ao seu lado mais sombrio.

A plateia lota, em parte porque cada um de nós carrega ao menos um traço semelhante, e a sombra que acompanha a procura do ideal maior pode deixar marcas profundas. Infelizmente, não somos perfeitos. Mas, há quem simplesmente não saiba lidar com isso.

“O perfeccionismo pode ser definido como uma característica psicológica de se buscar padrões elevados nas realizações, padrões muitas vezes inatingíveis”, explica a psicoterapeuta Patrícia Gebrim, autora do livro “Enquanto Escorre o Tempo” (Editora Pensamento). “Quando levado ao extremo, o perfeccionismo se torna prejudicial, apresentando uma formação rígida do pensamento, que gera dificuldade de adaptação e prejudica as relações interpessoais”. Para Patrícia, a personagem do filme, uma bailarina que passa a ter delírios por conta de sua obsessão, sofreria de uma patologia psiquiátrica conhecida como Transtorno de Personalidade Borderline, que conduziria aos impulsos de autoagressão.

O perfeccionismo, em si, não causa alucinações. Isso não significa que o perfeccionista extremo não sofra: “A busca pela perfeição como impulso que nos direciona na vida pode ser algo positivo, uma determinação que direciona para o crescimento, visando a nos tornar pessoas melhores”, ressalta Patrícia. “O problema é a exigência de que os altos padrões estabelecidos sejam sempre atingidos - nós não seremos nunca capazes de atingir um estado de absoluta perfeição”.

"Estava doente"
Quando a rota se torna a meta, surge o problema. É o caso de Débora Fernandes, estudante de Psicologia, que durante muito tempo buscou no próprio corpo a expressão máxima da perfeição. “Banhos, esfoliações, unhas, depilações... tudo era em demasia”, explica ela. “Com a casa era a mesma coisa: tinha de estar impecável, o que é impossível com um filho de seis anos, e acabei me afastando do que mais gosto, que são as pessoas, a parte social. Cheguei ao ponto de não convidar pessoas achando que podiam notar algo sujo ou fora do lugar, estava doente”.
Após uma cirurgia na coluna (que ela atribui à pressão psicológica), Débora passou a buscar incessantemente a perfeição da alma, cobrando-se em relação aos seus conhecimentos religiosos e intelectuais. Passava hora trancada no quarto, lendo inúmeros livros, enquanto que a própria casa era relegada a segundo plano. Não usava maquiagem, deixou de fazer as unhas e passou a se penitenciar de forma extrema em relação a sua própria postura.

De uma forma ou de outra, continuava exigindo de si com a mesma intensidade que antes, porque deveria ser quase tão pura quanto um santo. “Acreditei que devia mudar meu corpo, que a estética me abriria portas; hoje percebo que o espiritual também foi uma obsessão. Quando nos confrontamos com a sombra, que é algo assustador, tentamos nos segurar em algo para justificar o mundo interno, achando que descobrimos a cura ou sei lá o quê”, diz ela. “O que mais me afetou foi perceber que existiam empecilhos internos contra os quais eu tentava lutar externamente”.

Segundo a estudante, a psicoterapia ajudou a colocar seus pés no chão novamente, fazendo com que ela se lembrasse quem era, onde poderia chegar, que é preciso recomeçar e ser humilde.

Organização pela busca da perfeição
As manifestações não precisam ser tão exageradas para atrapalhar o dia-a-dia. Há pessoas que transferem a mania de perfeição para o ambiente em que vivem, e isso não é um traço exclusivo das mulheres. “Muitas vezes, a intensidade com que uma pessoa tenta ordenar o mundo externo é o reflexo visível de uma tentativa inconsciente de ordenar o mundo interno”, diz Patrícia.

O empresário Edson Pezenti sabe bem como é viver desta maneira: “Os meus objetos são todos separados, tenho umas 80 gavetas e sei onde cada coisa está”, comenta ele, que acredita que a organização extrema é simplesmente uma forma inteligente de não perder tempo. “Eu enxergo demais. Acho que as pessoas têm uma deficiência, não é possível: se uma coisa está sempre no lugar, para que deixar os outros loucos colocando em outro?”.

Longe de achar que é perfeito, Pezenti reconhece que sua busca causa sofrimento. “Sempre procurei ser perfeccionista. É melhor não errar do que pedir desculpas e querer corrigir depois”. Em função disso, passa muitas noites acordado. “Tudo eu resolvo de madrugada. Isso acaba judiando da gente”.

Perfeccionismo versus transtorno obsessivo compulsivo
Muitas pessoas associam o perfeccionismo ao transtorno obsessivo compulsivo (TOC), o que é um erro. “O transtorno obsessivo compulsivo é uma doença psiquiátrica caracterizada pela existência de obsessões que invadem a cabeça das pessoas”, explica Patrícia Gebrim. “As obsessões podem ser seguidas de compulsões, comportamentos que as pessoas desenvolvem para neutralizá-las”. Diferente do perfeccionista, a pessoa com TOC realiza rituais com medo de que, se não os cumprir devidamente, será castigada – pela morte de um familiar, por exemplo.

Valéria Palazzo, psicóloga fundadora e coordenadora do GATDA (Grupo de Apoio e Tratamento de Distúrbios Alimentares), mostra que o perfeccionista apresenta sentimentos conflitantes sobre si mesmo. “Quando consegue cumprir suas metas e idealizações, sua autoimagem é positiva, e sua autoestima alimentada”, diz. “Quando, ao contrário, isto não acontece, ele se condena violentamente, apresentando baixa autoestima”. Para o perfeccionista, o único caminho de aceitação pessoal é a perfeição. Este traço está presente nos transtornos alimentares como a bulimia e a anorexia, e pode se manifestar em transtornos de ansiedade, depressão e transtorno obsessivo compulsivo, embora não seja um fator causador destas graves patologias.

Sinais de que algo não vai bem
Geralmente, o perfeccionista pode ser definido com um “oito ou oitenta”: ou faz perfeito, ou não faz nada. Esta autoexigência pode resultar em sinais de cansaço, tanto físicos quanto psicológicos. Pessoas com este traço tendem a sofrer também de isolamento social, oscilações constantes de humor, baixa tolerância à frustração e depressão. “Quando o perfeccionismo ultrapassa os limites do que é saudável, percebemos que a pessoa passa a se sentir submetida a um forte estresse, resultante da constante cobrança que impõe a si mesma”, comenta Patrícia.

Alguns sinais de alerta são a preocupação excessiva em corresponder às expectativas alheias, culpa exagerada diante do erro cometido, insatisfação mediante qualquer tarefa executada e exigência de que outras pessoas sejam perfeitas.

Embora um perfeccionista seja sempre um perfeccionista, o traço pode ser modulado. A psicóloga Valéria explica que manter os traços positivos do perfeccionismo, como a vontade de fazer bem feito, mas respeitando os próprios limites, é uma forma de atenuar o problema. “A perfeição é um conceito fantasioso, que levado ao extremo conduz apenas à insatisfação”. Pais e amigos podem ajudar, mostrando que a vida pode ser mais leve. “Eles devem mostrar que o respeito e o apreço que sentem por uma pessoa não estão condicionados à sua perfeita conduta”.

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